DESFAZENDO O INFERNO





Durante a sangrenta guerra civil subsequente à independência da Índia, Mahatma Gandhi (1869-1948) iniciou um jejum e jurou que não comeria até que a matança terminasse, mesmo que isso significasse sua morte por inanição - uma atitude extrema expressando sua apologia à não-violência.
Um dia, estando Gandhi de cama, um hindu enlouquecido o visitou e atirou-lhe um pedaço de pão enquanto gritava:
- Eu já vou para o inferno e não quero a culpa da sua morte também em minha alma! Coma, por favor!
Gandhi, sereno como sempre, replicou:
- Por que você vai para o inferno?
O hindu, trêmulo, respondeu:
- Eu tinha um filho pequeno que foi assassinado pelos muçulmanos. Então peguei a primeira criança muçulmana que consegui encontrar e a matei, arrebentando-lhe a cabeça contra a parede.
Gandhi fechou os olhos e chorou por dentro. Depois, recompondo-se, disse:
- Eu conheço um jeito de escapar do inferno. Por causa do morticínio, muitas crianças agora são órfãs. Encontre um menino muçulmano mais ou menos do tamanho de teu finado filho e o adote.
O homem ficou confuso e admirado com a proposta, mas Gandhi continuou:
- Atente apenas para um detalhe: você deverá criá-lo como um muçulmano.
O hindu ficara desconcertado com aquilo. Era diferente de tudo que sentia e pensava. Era uma proposta ousada e revolucionária. 
O homem caiu aos pés de Mahatma. A loucura abandonara seus olhos, agora preenchidos por lágrimas.
Gandhi colocou as mãos na cabeça do hindu e o abençoou, desejando que ele aceitasse seu novo caminho, o escape de seu inferno. 
Ao ir embora, o hindu estava tomado por uma estranha paz e, em seu coração, a proposta da lei do amor e do perdão. 

Autoria anônima - adaptação de Marcos Aguiar. 

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