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Mostrando postagens de junho, 2026

DIGNIDADE EM PRIMEIRO LUGAR

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A holandesa Janny Brandes-Brilleslijper (1916-2003), sobrevivente do Holocausto, narrou em suas memórias que, chegando ao campo de Birkenau, foi colocada em quarentena, dentro de um galpão, junto com outras mulheres de nacionalidades diversas: russas, italianas, norueguesas e dinamarquesas. Mas foram as francesas que lhe proporcionaram algo muito positivo.  Naquele local desumano, em que os nazistas desejavam simplesmente acabar com a dignidade das pessoas, Janny presenciou algumas daquelas mulheres pegando um pedaço de vidro espelhado e um pequeno pente com três dentes. Com isso, elas penteavam as sobrancelhas. Depois, prendiam à cabeça pedaços de pano e tornavam a se olhar naquele espelho improvisado para conferir se ainda estavam minimamente elegantes. Em meio àquele caos, essas mulheres que recorriam a tal precário procedimento de embelezamento, ocultando a cabeça totalmente raspada, reafirmavam sua obstinação em não desistir de sua dignidade e não ceder à pressão d...

SUPERAÇÃO

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Num dia de pleno sol, uma mudinha foi plantada. Brotou timidamente mas cheia de vida e feliz, espreguiçando os braços e alongando-os dia após dia. De início, quase ninguém reparou naquela plantinha que crescia e se cobria de folhas.  Quando, finalmente, tornou-se uma árvore robusta, seus ramos viraram galhos fortes e ela adquiriu a maioridade vegetal. Nos dias ensolarados, as pessoas buscavam alívio em sua sombra. As crianças se penduravam em seus galhos, balançando-se pra lá e pra cá. E todos foram se acostumando àquela imponente e silenciosa amiga. Contudo, certa noite, um descontente resolveu dar cabo da árvore, irritado com as folhas do outono e as flores da primavera que caíam sem parar, atapetando o chão. Ele não queria o trabalho de limpar e varrer. Ao amanhecer, uma triste cena: galhos cortados, amontoados na calçada e um pedaço de tronco erguendo-se nu, constrangido. As crianças lamentaram e os adultos indagaram quem teria cometido tal maldade. E o tronco lá fi...

O PÉ DO AMOR

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Um rei foi visitar o seu jardim e ficou surpreso com o que viu. O lugar estava desolado: as árvores, quase todas, estavam secas e as flores não brotavam. Chamou imediatamente o jardineiro, que não soube explicar o porquê de o jardim estar daquele jeito. - Majestade, eu tenho irrigado e adubado bem. Dou o meu melhor aqui, mas realmente não sei o que está acontecendo.  O rei resolver conversar com as plantas. Para sua surpresa, elas responderam. O carvalho estava triste porque não era tão alto quanto o pinheiro; o pinheiro estava ressentido por não poder produzir uvas como a parreira; a parreira queria produzir flores como a roseira e esta ansiava ser tão alta e imponente quanto o carvalho. Somente o pé de amor estava belo e florido. Ele explicou ao rei:  - Como posso querer ser alguém além de mim mesmo? Simplesmente tento ser o melhor que posso a cada dia! Uma pessoa cheia de amor jamais busca competitividade, tampouco se deixa dominar pela inveja! Autoria desconhec...

DOMÍNIO PRÓPRIO

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Um urso esfomeado estava à procura de algo para comer quando se deparou com uma colmeia no tronco de uma árvore. Foi logo fuçando a colmeia, imaginando uma forma de pegar o mel, quando foi picado por uma abelha bem na ponta do nariz. O urso virou uma fera; soltou um urro tão barulhento que alvoroçou todas as abelhas. Daí começou a dar patadas muito fortes na árvore, o que deixou as abelhas ainda mais assustadas. De repente, todas saíram da colmeia e começaram a ferroar o urso que, sem alternativa, teve de fugir, todo inchado de picadas e urrando de dor. Desenvolva o autocontrole. Não se deixe irritar facilmente por uma provocação, por menor que ela seja. Fábula de Esopo (620-564 a.C.) - adaptação de Marcos Aguiar. 

UMA NOVA AMIZADE

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Seu José era conhecido como um tipo desagradável, tão amargo a ponto de brigar com as crianças se elas ousassem colocar o pé no gramado dele. Não gostava que elas andassem de bicicleta em frente à sua casa. Era malquisto por quase todos que o conheciam. Dentre todos os meninos da vizinhança, havia um, Ricardo, que o odiava de verdade. É que um dia, aos nove anos, passando com sua bicicleta pela calçada do seu José, este o acertou com uma pá. Ricardo não deixou barato. Foi em casa, pegou uma bola de soprar, encheu-a com água suja e a jogou no vizinho. A polícia foi acionada. O policial encontrou Ricardo no jardim de sua própria casa. Quando o moleque achou que ia levar a maior bronca, o policial pousou a mão sobre seu ombro e disse:  - É isso aí, garoto. Gostei de ver. Acertou em cheio. O policial também não gostava do seu José. Os anos se passaram e Ricardo nunca mais passou em frente à casa do seu José. Num belo dia de primavera, Ricardo, já adulto, estava passeando pr...

PERDAS E GANHOS

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Na capital paranaense, vive uma heroína que sabe bem o que são perdas e ganhos. Bonita, culta, ativa, advogada por profissão, aos 41 anos Maria Lúcia Saldanha sentiu os primeiros sintomas da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) - uma síndrome neurodegenerativa, progressiva e incurável. Começou com fraqueza e paralisia dos membros superiores e inferiores. Depois, incapacidade de falar, de deglutir e de respirar. Mais de uma década depois do diagnóstico, Maria Lúcia vive plenamente. Comanda a casa, a família e a vida somente com o olhar, graças a um programa especial de computador. Presa a uma cadeira de rodas, alimentada por sonda gástrica e ligada a um ventilador mecânico para poder respirar, Maria Lúcia segue com sua vida. Ao tomar consciência de sua condição, poderia ter simplesmente se entregado ao desenrolar drástico da enfermidade, mas ela optou por lutar. Queria ver o filho se formar na Marinha, mesmo sem poder abraçá-lo senão com o coração. Assim, Maria Lúcia continua...

DISFARCE DA VERDADE

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Uma vez, a Verdade resolveu visitar o sultão no palácio dele. Ela se envolveu com um véu claro e um vestido transparente e, ao passar pelos portões, foi barrada pelo sentinela.  - Quem é você? - Sou a Verdade e quero falar com o sultão. O chefe da guarda foi falar com o sultão: - Senhor, uma mulher desconhecida e seminua pede uma audiência.  - Qual o nome dela? - Chama-se Verdade! - Não a deixe entrar! Diga-lhe que vá embora imediatamente! A Verdade entristeceu-se com a resposta do sultão e foi embora. Uns dias depois, ela decidiu voltar. Desta vez, trajada como peregrina, com roupas simples e desgastadas. Ao ser interpelada pelo guarda, respondeu: - Sou a Verdade e quero falar com o sultão! Era o mesmo guarda da primeira vez e ele não a reconheceu. Quando comunicou ao sultão sobre a presença da viajante e que o nome dela era Verdade, recebeu a mesma ordem: - Já falei que não quero a Verdade aqui! Mande-a embora! A Verdade, desapontada, saiu mais uma vez. No dia se...

A ÚLTIMA FOLHA

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Duas jovens pintoras foram residir em Nova York. O frio de dezembro chegou com grave epidemia de gripe e Joana, uma das pintoras, ficou acamada. Apesar dos cuidados de sua amiga Suzana e tratamento médico, ela não melhorava. Não reagia. Ficava deitada e olhando para a parede branca do prédio do outro lado da rua. Quando Suzana comentou que a febre baixara e que em dois dias elas poderiam viajar para a Flórida, Joana respondeu, desanimada: - Três dias atrás havia quase cem folhas na parreira que sobe por aquela parede. Estou contando. Hoje tem somente dezenove. Quando a última folha cair, eu vou morrer. Suzana tentou dissuadi-la da ideia. Afinal, que relação poderia haver entre as folhas de uma parreira e a recuperação da saúde dela? - Pare de olhar por essa janela - disse Suzana - Prometa-me. - Está bem - respondeu a enferma, mas com a certeza de que não cumpriria a promessa. No andar de baixo, morava Bernardo, um senhor de oitenta anos, conhecido das duas artistas. Pintor ...

COMPROMETIDOS ATÉ À MORTE

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Quando o Titanic afundou na sua viagem inaugural em 1912, levava muitos passageiros ilustres - entre eles, o magnata judeu John Jacob Astor IV. Sua fortuna era mais que suficiente para construir 30 transatlânticos como o Titanic. Todavia, diante do perigo mortal, Jacob escolheu o que considerava moralmente correto e abriu mão de seu lugar num bote salva-vidas em favor de duas crianças assustadas. Outro milionário, Isidor Straus, co-proprietário da gigante rede americana de armazéns "Macy's", declarou, em meio ao desastre inevitável: - Não entrarei em um salva-vidas antes dos outros homens! Sua esposa, Ida Straus, também se recusou a embarcar no bote, cedendo seu lugar à sua recém-nomeada criada, Ellen Bird. Decidiu passar seus últimos momentos de vida com o marido. Essas nobres pessoas preferiram abdicar de suas riquezas e mesmo de suas vidas a comprometer seus princípios. Sua nobre escolha, selada com as gélidas águas do Atlântico onde submergiram, atesta a c...

DEIXANDO LIVRE

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Todo santo dia, um passarinho visitava a janela de um menino chamado José. Ele sempre acordava cedinho com o canto do pássaro. Então, certa vez, José decidiu capturar o passarinho, prendendo-o numa gaiola. Todo contente, foi logo mostrar à irmã Maria sua nova aquisição.  Maria ficou visivelmente desapontada com a atitude do irmão e fê-lo sentar-se.  - Vou te contar uma história - disse-lhe.  E continuou: - Uma vez, um menino apanhou um passarinho, assim como você, e o prendeu na gaiola. O passarinho, que antes cantava todos os dias, passou a ficar em silêncio, de tão entristecido. Certa noite, o menino teve um sonho em que o passarinho dizia para ele: “Por que me traiu dessa maneira? Todos os dias eu alegrava o seu dia com o meu canto e você me aprisionou de maneira cruel. Agora vivo triste; não quero cantar e nem comer, sinto falta de meus amigos e não posso mais voar!" Quando o menino acordou, correu para a gaiola a fim de soltar o passarinho, mas ele havia ...

UMA BOA MEDICINA

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Ao visitar o hospital, um menino conheceu uma garotinha doente. Ao entrar na enfermaria, ele teve uma vaga impressão de tristeza. Achou estranho. O médico lhe mostrara um grande armário cheio de remédios, pomadas e pílulas.  "Que coisa", pensava o garoto. "Se aqui impedem o mal de ir adiante, tudo devia parecer alegre e feliz. Por que estou sentindo tanta tristeza?" O médico lhe explicou como a doença insistia em entrar no corpo das pessoas. Que havia mil espécies de doenças, que usavam máscaras para que não pudessem ser reconhecidas e como era difícil manter a saúde naquele ambiente. Explicou ainda que era preciso estudar muito para desmascarar a doença, colocá-la para fora e atrair a saúde. No entanto, ali no quarto da doentinha, o menino achou-a muito bonita, embora pálida, com os cabelos se esparramando pelo travesseiro. Ela lhe disse que não podia andar mas que não tinha muita importância, já que não tinha lugar algum para ir. Roberto (era o nome do...

OUVIDOS DE OUVIR

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Índios americanos reunidos. De início, profundo silêncio entre eles. De repente, alguém abre a boca, brevemente. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois alguém expôs seus pensamentos - pensamentos essenciais para ele. Tais pensamentos são estranhos aos demais. É preciso tempo para assimilar o que o outro falou. Se alguém falar imediatamente depois, são duas as possibilidades. A primeira: quem falou está dizendo: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse suas palavras." A segunda possibilidade: "Ouvi o que você falou. Mas isso eu já havia pensado há muito tempo. Não é novidade pra mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou!" Em ambos os casos, está se chamando o outro de tolo, o que é pior que uma bofetada. O silêncio prolongado é um jeito de dizer: "Estou pond...

VOCÊ, HOMICIDA?

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Seria capaz de cravar um punhal no coração de um ente querido? Tal pergunta talvez tenha te causado grande choque. Parece que ouço você respondendo, indignado: "Eu jamais faria isso, muito menos a alguém que amo!" Você pode estar certo e no entanto estar se enganando ao mesmo tempo. Pois, cada vez que ofende alguém a quem ama, você comete um crime contra ele. Sempre que você fecha os ouvidos ao conselho de um ente amado; cada vez que some e deixa desesperada aquela pessoa querida; quando resolve fazer coisas erradas, magoando o coração de quem te quer bem; e sempre que retribui a bondade alheia com um gesto de ingratidão - você é, sim, um homicida, ainda que não carregue uma arma branca ou de fogo. Se já apunhalou pessoas com a indiferença, desdém e palavras amargas, então você é homicida de fato. Entenda que o desrespeito, a chantagem emocional, a manipulação psicológica e a infidelidade são protagonistas de incontáveis mortes lentas e doloridas. Sim, nossos afet...

CONFIANÇA AO EXTREMO

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Uma vez houve três dias de festa no céu. Todos os bichos estavam lá, menos a tartaruga, por andar muito devagar. Enquanto todos festejavam alegremente, ela ainda ia no meio do caminho.  No último dia de festa, a garça se ofereceu para carregar a tartaruga ao céu e ela aceitou, muito agradecida. Mas a garça, com malícia, ia sempre perguntando à tartaruga se ela ainda avistava a Terra; quando ela finalmente disse que não conseguia mais avistar, a garça a largou no ar e a coitada foi descendo de ponta cabeça, gritando: - Afastem-se, pedras e rochas, senão vos quebrareis! As pedras e rochas se afastaram e a tartaruga se esborrachou ao solo, arrebentando-se toda. Seu casco se espatifou em muitos pedaços. E a pobrezinha chorou. O Criador ouviu o choro da tartaruga e mandou parar a festa no céu. Com muita pena dela, resolveu ajudá-la, juntando as partes do casco e colocando-o no lugar.  É por isso que hoje a tartaruga tem o casco em forma de remendos. Muito cuidado c...

TOCAR O CÉU

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"Sempre fui destemida!" É com estas palavras que a norte-americana Jessica Cox (1983-) define a si mesma. Psicóloga graduada pela Universidade do Arizona, pianista, faixa preta em taekwondo, piloto de avião e mergulhadora certificada - atividades absolutamente incomuns para uma pessoa sem braços. Não, você não leu errado! Jessica é a primeira piloto sem braços licenciada do mundo, bem como a primeira faixa preta sem braços da American Taekwondo Association! Ela nasceu sem os membros devido a uma rara condição genética. Ela chega a escrever vinte e cinco palavras por minuto utilizando os pés; seca os cabelos, se maqueia, troca suas lentes de contato e dirige automóveis. "Aviões não foram feitos para serem pilotados com os pés, mas não desisti enquanto não tirei minha licença", conta Jessica.  Há pouco tempo, em entrevista, Cox falou sobre o Projeto 2025, cujo objetivo é personalizar uma aeronave RV-10 para ser controlada com os pés. “É uma meta bastante a...

O LEÃO ABOLICIONISTA

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Frederick Augustus Washington Bailey, ou simplesmente Frederick Douglass (1818-1895), nasceu como escravo numa fazenda no sul dos EUA. Pouco soube a respeito de sua mãe e nunca conheceu seu pai. Começou a trabalhar na lavoura aos seis anos. Aos oito, aprendeu a ler e escrever, descobrindo, pela primeira vez, a palavra "abolição" e seu significado. Desde que se conheceu por gente, Douglass jamais aceitou viver na condição de escravo. Várias vezes tentou fugir, em todas sendo recapturado e reconduzido à servidão, depois de severas punições. Aos vinte anos, finalmente, teve êxito na fuga, conseguindo chegar a um refúgio abolicionista, em Nova York. Casou e teve cinco filhos. Tornou-se posteriormente um ardoroso abolicionista, escritor e estadista, ficando conhecido como "o leão de Anacostia". Foi um dos mais eminentes afro-americanos de sua época e um dos mais influentes da história dos EUA, sobretudo durante a Guerra da Secessão e a subsequente abolição da...

CUIDANDO DO DESTINO

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Muito tempo atrás, morava numa floresta, na Índia, um monge capaz de prever o futuro. Muita gente o procurava para ouvir suas previsões. Até que um dia, cansado daquilo, o monge passou a viver escondido em uma caverna, buscando sossego. Uns anos mais tarde, dois amigos se perderam na mata e foram parar na caverna onde o monge vivia. Ele os recebeu e os alimentou e assim pernoitaram ali. Conhecedores da fama do monge, resolveram aproveitar a oportunidade, pedindo-lhe que lhes revelasse o futuro deles. - Está bem - respondeu o monge. E disse a um deles: - Daqui a um ano você será o rei desta terra. E para o outro falou: - Daqui a um ano você será assassinado. No dia seguinte bem cedo os dois foram embora - um imensamente feliz e o outro desesperado. O que viria a ser rei se tornou arrogante e irresponsável; o que iria morrer se pôs a repensar sobre sua vida e decidiu ser uma pessoa melhor dali em diante. Um ano se passou e os dois se reencontraram e decidiram fazer um passeio...

MAGIA DA POESIA

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Um velho poeta, apesar de escrever a vida toda, não lograra êxito com seus poemas. Por isso, vivia melancólico e recluso. Certo dia, enquanto desabava um forte temporal e ele se aquecia ao lado de sua lareira, de repente ouviu um grito do lado de fora da casa: - Por favor, me deixe entrar! Me ajude! Ao abrir a porta, o poeta se assustou um pouco: era um menino despido e tremendo de frio. Rapidamente o fez entrar, enrolou-o com uma manta e lhe preparou um leite bem quente. Em meio à urgência, o dono da casa não deixou de reparar na beleza encantadora do menino: gordinho, bochechas fofas, olhos grandes, cílios compridos e cabelos cacheados que possuíam um brilho natural. Na mão, um pequeno arco.  - Qual o seu nome? - indagou o poeta. - Me chamo Amor! Nesse momento, o menino puxou o arco e uma flecha brilhante surgiu; e, inesperadamente, atirou a flecha no coração do poeta. Em seguida, o menino sorriu e desapareceu. A partir daquela estranha experiência, tudo em volta do v...

OS TRÊS IGUAIS

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Certa vez, na antiga cidade de El-Katif, apareceu um estrangeiro misterioso - um mago persa. Comentava-se que ele se fazia acompanhar de três homens tão exatamente idênticos, que não se podia descobrir um único detalhe que permitisse distinguir um dos tais homens dos outros dois. A notícia chegou aos ouvidos do rei Fahad que, muito curioso, declarou que queria conhecê-los.  O rei, acompanhado de seu séquito, dirigiu-se à tenda erguida pelo mago numa àrea erma, próxima à cidade. Recebido com reverência, o rei afirmou incisivamente que desejava ver de imediato os três homens iguais. Estando todos sentados confortavelmente no interior da tenda, o mago bateu palmas e pronunciou palavras de um idioma desconhecido.  No fundo da tenda, sobre um tablado, ergueu-se um pano, surgindo um homem magro e moreno, trajado adequadamente à maneira dos mercadores persas. - Eis, aí, ó rei magnânimo, o primeiro dos três homens! - disse o mago. Pouco depois, o homem retirou-se, desapare...

VALIOSO QUILO DE FARINHA

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O renomado astro indiano Aamir Khan (1965-), comovido com a dificuldade de seus compatriotas, resolveu fazer algo inusitado por eles. Providenciou, do próprio bolso, grande quantidade de farinha para os pobres - isto é, um quilo de farinha para cada um. Entretanto, muitos dos contemplados acharam que não valeria a pena se deslocarem para o local de distribuição do alimento, considerando aquilo uma insignificância e perda de tempo. Afinal, era apenas um quilo de farinha! Mas aqueles que de fato sentiram necessidade compareceram, pois, para eles, a farinha significava muito e não poderiam deixar passar a oportunidade. Essas pessoas, ao chegarem em suas casas e abrindo os pacotes, descobriram um conteúdo inesperado: a importância de 15.000 rúpias (cerca de R$ 1.000,00)! Dessa forma, a ajuda e o socorro chegaram aos que realmente precisavam e estavam cônscios da própria carência.  Autoria anônima - adaptação de Marcos Aguiar. 

AS COISAS "FALAM"

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Estavam casados há anos. Nádia era amorosa e dedicada, empenhando-se em manter a casa no mais perfeito equilíbrio. Apreciava as coisas em seus lugares corretos, evitando bagunça e desarranjos. Seu marido, entretanto, costumava deixar tudo fora do lugar. Quando precisava de algo, era uma verdadeira balbúrdia, porque perdia um tempo enorme procurando. Ao sair, não recordava onde deixara as chaves. Na hora do banho, não lembrava onde havia largado a toalha e assim por diante. Nádia pedia com delicadeza que procurasse dar a cada coisa seu devido lugar, resguardando-se, assim, de estresse, mas ele simplesmente não lhe dava ouvidos. Então, certa noite, ao jantar, quando o esposo lhe perguntou como fora seu dia, Nádia respondeu: - Foi maravilhoso! Passei as horas a conversar com as coisas. - Com as coisas? Que coisas? Ficou louca? - Não! - continuou ela, sorrindo - Estou muito bem. Acontece que cada coisa que eu recolhia falava comigo. Por exemplo, o chinelo me disse que estava tr...

MUNDO PEQUENO

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Uma rã morava no fundo de um poço abandonado. Ali era seu único lugar; só conseguia movimentar-se naquele limitado espaço e nunca saía de lá. Além daquilo, tudo o que a rã via era apenas um pequeno pedaço do céu. Não conhecia absolutamente nada lá fora. Certo dia, uma tartaruga marinha apareceu à beira do poço e a rã, lá do fundo, gritou-lhe: - Veja, amiga tartaruga, quão lindo e confortável é o meu mundo! Aqui, salto livremente e descanso num buraco da parede sempre que quero. Se desejo nadar, aqui tem água à vontade. Passear neste local úmido é uma verdadeira delícia! Garanto que você jamais teve uma vida tão feliz como esta! Venha ver o meu paraíso! Curiosa, a tartaruga chegou um pouco mais perto. Porém, mal viu o "paraíso" da rã, recuou: - Quer saber, rã? O meu mundo, o mar, é tão imenso com milhares de quilômetros de extensão e milhares de braças de profundidade, que simplesmente não consigo descrevê-lo! Quanto mais o percorro, mais há para se explorar! O meu...

MEMÓRIAS PRECIOSAS

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Laís e Clara chegaram eufóricas à casa da vovó, com suas mochilas quase explodindo com tantas coisas - roupas, travesseiros, mantas coloridas e brinquedos; enorme bagagem pra tão pouco tempo. - A gente trouxe tudo o que precisamos, vó! A avó não deixou por menos. Estendeu um colchão grande no assoalho da sala, rodeado de almofadas, como se fossem paredes de uma cabana em plena floresta. Nesse espaço, avó e netas compartilharam momentos agradáveis. Houve leitura de estórias, simulação de piquenique, teatrinho e outros passatempos. Ninguém sabia quem estava mais feliz: a avó que recebia as netas ou elas que visitavam a avó. No entanto, houve um momento que superou os folguedos e guerras de almofadas e travesseiros. Foi quando a avó começou a relatar fatos da vida da mãe das meninas, da época em que essa tinha mais ou menos a idade delas. A curiosidade cresceu. Perguntas se sucediam umas às outras, quase sem cessar. Histórias da família e da escola, travessuras, peraltices - t...

TSE E YUNG

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Certa vez, numa pequena vila, nasceram dois meninos de famílias diferentes, no mesmo dia e horário e, para surpresa de todos, ambos nasceram com um grande nódulo na testa. Um dos bebês recebeu o nome de Tse e seus parentes eram muito arrogantes. Horrorizados com a aparência do menino, chamaram um médico para remover o nódulo, mas como o procedimento se mostrou arriscado, decidiram criar o garoto às escondidas. O outro menino foi chamado de Yung e sua família era amorosa e humilde. Cercavam Yung com todo amor e carinho possível, pois não queriam que ele se sentisse envergonhado ou rejeitado por causa do nódulo.  Passou o tempo e os meninos cresceram. Tse se tornou um rapaz cheio de complexos, sentia-se inferior e não conseguia evoluir em coisa alguma. Além disso, vivia amargurado e detestava conviver com outras pessoas. Já Yung era um mancebo feliz e, mesmo diante de comentários maldosos, ele nunca se importava, pois se sentia amado e protegido por sua família. Yung era ...

A PEDRA MÁGICA

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Muito tempo atrás, um alquimista criou o que chamou de "pedra filosofal" - uma pedra mágica capaz de transformar qualquer metal em ouro. No entanto, após enriquecer bastante com o uso da pedra, decidiu lançá-la do alto de uma montanha, pois não estava mais interessado em fazer dinheiro.  Anos se passaram e a pedra filosofal virou lenda. Muitos tentaram encontrá-la, sem sucesso. Até que, um dia, um homem apático e solitário resolveu procurar a tal pedra. Achou que pudesse preencher o próprio vazio com a procura. Assim, passou a ficar obcecado na busca, não pensando em mais nada. Acampado ao pé da montanha, todos os dias ele recolhia pedras, encostava uma a uma na fivela de seu cinto, na esperança de transformar o metal em ouro. Diariamente, durante anos, testou incontáveis pedras em vão. Uma vez, num dia de muito calor, resolveu tirar um cochilo à sombra de um salgueiro. Ao acordar, percebeu um brilho diferente na fivela do cinto: ela tinha se transformado em ouro!...

VERDADEIROS REIS

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Certa vez, numa pequena aldeia, chegou um caçador errante. Dirigindo-se a um camponês, perguntou: - Você sabe o caminho para Gondar? - Sei sim, senhor, mas já está anoitecendo e Gondar fica a um dia de distância daqui. Então sugiro que pernoite em minha casa e amanhã cedo poderá partir. O homem aceitou o convite alegremente. O camponês preparou-lhe uma de suas poucas galinhas para o jantar e lhe ofereceu o seu leito, indo dormir no chão. No dia seguinte, antes de sair, o caçador disse: - Já que você sabe o caminho para Gondar, poderia me acompanhar até lá pra que eu não me perca novamente? - Tudo bem, irei com o senhor, mas com uma condição: chegando lá, quero que me mostre o rei, pois nunca o vi. - Combinado. Você o verá. Assim partiram, ambos montados no cavalo do caçador. Passaram por montanhas e bosques, durante um dia e uma noite inteira de viagem. Chegando a Gondar, o camponês indagou: - Como vou saber quem é o rei? - Muito simples: quando todo mundo fizer algo, o rei...

A XÍCARA DE CHÁ

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Havia um mosteiro no alto de uma montanha, onde vivia um grande mestre procurado por muitas pessoas sedentas de conselhos. Certo homem, ouvindo falar do sábio, decidiu ir conhecê-lo. Cruzou o país inteiro até chegar ao mosteiro e foi recebido pelo próprio mestre que o convidou para um chá. Sentaram-se e o mestre preparou as xícaras. O homem estava tão entusiasmado com o encontro que não parava de falar um único minuto; contou ao grande mestre sobre suas peregrinações, os livros que havia lido e tudo que havia aprendido. Falou o quanto era inteligente e até recitou frases de grandes pensadores. Enquanto isso, o mestre ia calmamente tomando o seu chá. Ao terminar de beber sua xícara, encheu-a novamente e começou a encher também a xícara do visitante, que não parava de falar. Daí a xícara transbordou, encharcando a mesa e escorrendo chá em abundância pelo chão.  O hóspede, surpreso e contrariado, gritou: - Pare! Não vê que está molhando tudo? Só então o mestre, serenamente...

DE ONDE VEM A CHUVA?

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Fazia tempo que não chovia na roça, de maneira que os animais começaram a ficar inquietos. Uns diziam que ia chover logo; outros achavam que ainda ia demorar; mas não chegavam a um consenso. - Só chove quando cai água do teto do meu galinheiro! - comentou a galinha. - Ora, que bobagem! - retrucou o sapo de dentro da lagoa - Chove quando a água aqui começa a borbulhar! - Mas como assim? - replicou a lebre - Está visto que chove quando as folhas das árvores começam a gotejar a água que têm dentro! Nesse momento, começou a chover. - Viram? - gritou a galinha - O teto do meu galinheiro está pingando. Isso é chuva! - Ora, não vê que a chuva é a água da lagoa borbulhando? - argumentou o sapo. - Nada disso! - retornou a lebre - Estão cegos? Não vêem que a água cai das folhas das árvores? Cada animal achava saber de onde vinha a chuva mas, na realidade, nenhum deles tinha o conhecimento, apenas opiniões. E opiniões não costumam se solidificar em fatos. Texto de Mi...

O PODER DA DOÇURA

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Um viajante seguia pela estrada quando observou um pequeno rio que começava quase insignificante por entre as pedras. Acompanhando o curso do rio por um bom tempo, notou que ele ia gradativamente se avolumando. Mais adiante, o que mais parecia um córrego se desdobrava agora em dezenas de cachoeiras, num espetáculo de águas cantantes. A música das águas enfeitiçou o andarilho, que se aproximou e foi descendo pelas pedras, ao lado de uma das cachoeiras. Descobriu, com surpresa, uma gruta, criada pela natureza com formas caprichosas. O homem entrou, impressionado com o aspecto das pedras gastas pelo tempo. De repente, descobriu uma placa. Alguém, obviamente, estivera ali antes dele. Com o auxílio da lanterna, leu a inscrição da placa. Consistia em versos do escritor Tagore, prêmio Nobel de literatura de 1913: "Não foi o martelo que deixou perfeitas estas pedras, mas a água, com sua doçura, dança e canção. Onde a dureza só faz destruir, a suavidade consegue esculpir."...

O ACORDO COM A MORTE

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Depois de muito trabalho em uma intensa guerra, a morte estava exausta e sua foice cega. O estado da ferramenta a incapacitava de ceifar mais vidas. Como não podia interromper sua tarefa, foi ter com um ferreiro a fim de que ele afiasse sua foice. O coitado, assim que avistou a morte, levou um grande susto, imaginando que sua hora era chegada. Mas logo a morte o tranquilizou, explicando o motivo de sua visita. - Está bem, farei o que me pede, mas com uma condição: quando você vier me buscar, me avise com antecedência, pra que eu deixe minha vida em ordem. A morte concordou, sua foice foi afiada e ela se foi. Finalmente, muitos anos depois, a morte voltou, disposta a levar o ferreiro, que demonstrou surpresa e indignação.  - Mas como assim? Não recorda o nosso trato? Que me avisaria com antecedência? - Mas eu lhe avisei, e muitas vezes! - retrucou a morte - Seus cabelos brancos e rugas, a perda de agilidade e força, o enfraquecimento da visão e audição... de que mais voc...