O IMPACTO DE UMA MENTIRA
Numa pequena comunidade espanhola chamada Estepona, um homem disse a seu filho que este podia levá-lo de carro até outro vilarejo, a mais ou menos trinta quilômetros dali. O filho recentemente aprendera a dirigir e aceitou com alegria a oportunidade.
Levou o pai à localidade, prometendo que retornaria às quatro da tarde; depois foi até à oficina a fim de fazer uma revisão no carro. Como o serviço iria demorar um pouco e ele tinha ainda algumas horas livres, decidiu assistir um filme no cinema local.
Acabou ficando tão entretido que não viu o tempo passar, de maneira que só percebeu o horário com o término da sessão.
Já havia passado das seis da noite - duas horas atrasado!
Imaginou que o pai estava muito zangado e nunca mais o deixaria dirigir.
Pegou o carro na oficina e disparou até o local que combinara com o pai. Ele estava lá, na esquina, esperando.
O moço pediu mil desculpas pelo atraso.
- Vim o mais rápido que pude, pai - explicou - O problema é que o carro precisou de um longo reparo, por isso me atrasei.
Ele nunca mais haveria de esquecer de como o seu pai o olhou naquele momento.
- Estou desapontado por você achar que precisa mentir pra mim - disse o pai - Quando você não apareceu na hora combinada, liguei para a oficina, preocupado. Me informaram que o carro estava pronto desde as três da tarde e que você é que não tinha dado as caras por lá.
Uma enorme culpa tomou conta do mancebo, que acabou contando toda a verdade e onde estivera.
O pai o ouviu com o semblante carregado.
- Estou muito triste, meu filho, mas não por você e sim por mim. Me dou conta de que fracassei como pai, já que depois de tantos anos você ainda acha que precisa mentir para mim. Criei um filho que não consegue nem dizer a verdade ao próprio pai. Vou voltar para casa a pé, a fim de refletir em que errei.
- Pai, são quase trinta quilômetros até nossa casa e está escuro. O senhor não pode voltar andando!
Mas as súplicas do rapaz caíram em ouvidos surdos.
O pai seguiu em direção a Estepona, pela estrada empoeirada, cabisbaixo e com as mãos enfiadas nos bolsos.
O filho pulou para dentro do carro e o seguiu de perto, esperando que ele desistisse daquele desatino e entrasse afinal no veículo. Implorou, dizendo que estava deveras arrependido. Mas o pai continuou a caminhar em silêncio.
E assim seguiram todo o trajeto, um no carro, outro a pé.
Ver o pai sofrendo física e emocionalmente se tornaria a experiência mais perturbadora e dolorosa da vida daquele jovem.
Ao mesmo tempo, contudo, foi também a maior das lições. Ele se empenhou em nunca mais mentir - pra ninguém.
Texto de Jason Bocarro - adaptação de Marcos Aguiar.
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